Domingo a noite, a tela da TV ta piscando aquela luz azulada no quarto escuro e o suor frio desce pelas costas, não importa se ta fazendo trinta graus lá fora. A tabela do Brasileirão virou um filme de terror de baixo orçamento daqueles que o monstro é ruim, mal feito, mas assusta igual porque a gente sabe que ele vai pegar a gente no final. Todo mundo repete o mantra do “número mágico”, o tal do 45. Parece senha de wifi do vizinho todo mundo quer ninguém esquece. Mas a real? As vezes 45 não resolve droga nenhuma.
O buraco é bem mais embaixo e tem cheiro de vestiário sem ventilação. Se a tua ideia for brincar de Nostradamus e arriscar um palpite em quem cai ou quem faz o milagre de ficar, dá uma olhada lá no CasinoLobster, mas aviso logo: aqui o papo eh sobrevivência pura e conta feita em guardanapo sujo de mostarda. O desespero tem um cheiro específico mistura de grama molhada com pipoca velha.
Essa vida de torcer pra time que briga la na parte de baixo da tabela muda a química do cérebro. Ninguém dorme direito. Fica sonhando com aquele lateral-direito ruim de bola isolando um cruzamento aos quarenta e oito do segundo tempo. Acorda assustado lembrando que o próximo jogo é fora de casa contra o líder que ta voando. O sofrimento vira rotina. E a tal matemática vira religião profana. Pegar a tabela, entrar no simulador do GE, projetar resultados improváveis e torcer pro rival direto empatar com o time reserva do Cuiabá numa terça-feira chuvosa. Vida de torcedor de Z4 não é pra amador exige estômago de avestruz.
O Mito dos 45 Ponto e a Mentira do Conforto
Tem essa lenda urbana que rola nos botecos ha décadas: “Faz 45 pontos que ta salvo, garantido”. Mentira deslavada. As vezes salva as vezes afunda igual pedra. Lembra de 2009? O Coritiba fez 45 pontos. Quarenta e cinco! E caiu. Foi choro foi vela foi quebra-quebra no Couto Pereira que parecia zona de guerra. Imagina o aluno fazer o dever de casa tirar nota na média e o professor reprovar mesmo assim porque a turma inteira foi genial. Futebol tem dessas injustiça cruéis. A régua sobe e desce dependendo da incompetência alheia. Tem ano que o nível técnico ta tão na lama que com 41 ou 42 o time escapa rindo, sobra ate vaga na Sulamericana pra ir passar vergonha internacional no ano seguinte.
O perigo mora na falsa sensação de conforto. O time chega nos 40 pontos faltando cinco rodada e todo mundo relaxa. O narrador diz “tá tranquilo”. Ai a desgraça acontece sorrateira. O time relaxa, acha que ja resolveu. Perde quatro seguidas de bobeira. A perna que antes corria leve agora pesa duzentos quilos. O goleiro que tava pegando até pensamento ruim começa a aceitar chute fraco do meio da rua. A bola queima no pé do volante como se fosse brasa. O tal “conforto” vira pânico generalizado em duas semanas. A torcida que antes cantava “eu acredito” começa a chiar vai pro aeroporto cobrar jogador. O clima azeda mais rápido que maionese caseira esquecida no sol.
Nota paralela estranha: Em 2004 durante uma partida decisiva contra o rebaixamento a tensão tava num nível tão absurdo que comecei a desfiar a barra da camisa de sorte. Puxava o fio compulsivamente sem ver. Quando o juiz apitou o fim do jogo (0 a 0 sofrido), percebeu-se que a camisa tinha virado uma espécie de top cropped involuntário. Metade da barriga peluda de fora. Continuou-se usando a camisa assim mesmo nos jogos seguintes por superstição parecendo um náufrago maluco na arquibancada e ninguém teve coragem de zoar a mandinga.
A conta precisa ser feita jogo a jogo rodada a rodada. Projetar muito longe da um azar danado. “Ah, vamos ganhar do lanterna em casa são três pontos certos”. O lanterna ja rebaixado sem pressão nenhuma joga leve, solto, parece o Barcelona do Guardiola trocando passe. O time vai la e mete 3 a 0 no desesperado que precisa do resultado no seu próprio estádio. E o time que briga pra não cair joga com uma bigorna nas costas errando passe de dois metros. Cada erro é um gemido coletivo no estádio que ecoa na alma. O silêncio da torcida quando o adversário faz gol… não existe som mais triste e pesado no mundo é o som da Série B batendo na porta.
A Armadilha da “Empatite” e o Tal Jogo de Seis Pontos
Empatar fora de casa eh bom resultado? Depende do desespero. Se o objetivo for ficar ali no meio da tabela comendo pelas beiradas, ótimo. Pra quem ta com a corda no pescoço empate é morte lenta. Soma um pontinho a rodada passa a distância pro décimo sexto não diminui e o campeonato encurta. A tal da “empatite” engana o torcedor bobo que acha que “somar é importante”. Parece que o time é guerreiro não perde, mas também não ganha nunca. E a matemática é cruel: tres pontos valem ouro. Uma vitória vale por três empates, vale pela moral. Matemática básica que técnico retranqueiro ignora pra garantir a multa rescisória gorda.
Aí entra o famigerado “jogo de seis pontos”. Termo gasto mas real pra caramba. Enfrentar o vizinho de tabela o companheiro de desgraça. O jogo que define quem respira aliviado e quem precisa de aparelhos. Perder confronto direto nessa situação é catástrofe nuclear. O rival sobe abre vantagem ganha moral. Quem perde afunda na lama entra em crise no vestiário começa a vazar áudio de jogador no WhatsApp reclamando que o bicho ta atrasado. O roteiro é sempre igual só muda o sotaque e a cor da camisa.
E tem o fator mala branca né? Aquele incentivo financeiro “externo” e misterioso. De repente o goleiro do time de meio de tabela que tava pensando nas férias em Cancún faz três milagres seguidos no ângulo. O zagueiro que não corria ha um mês dá carrinho de cabeça na lama. Suspeito? Talvez. Mas na guerra do rebaixamento vale tudo. A ética fica um pouco flexível quando o fantasma da segunda divisão assombra a conta bancária do clube.
Curiosidade aleatória: Existe uma teoria minha não comprovada cientificamente de que narrador de radio AM traz mais sorte que narrador de TV HD. A imagem nítida parece que traz azar. Em 2014 ouviu-se a reta final inteira num radinho de pilha cinza que chiava violentamente sempre que passava moto. O time salvou na última rodada com um gol de canela. O rádio ta guardado numa caixa de sapato no topo do armário sem pilhas protegido como se fosse o Santo Graal. Se ligar aquilo de novo sem motivo extremo gasta a sorte acumulada.
A Reta Final: Onde Filho Chora e Mãe Não Vê
Faltando cinco rodadas a lógica sai de campo. Esquece prancheta tática e saida qualificada. Vira bumba meu boi. É chutão pra frente zagueiro virando centroavante no desespero goleiro indo pra área cabecear escanteio aos 48. A técnica some fica só a vontade bruta — ou a falta dela o que irrita mais. Tem jogador “craque” que se esconde a bola vira fogo no pé. Tem bagre esforçado que vira herói nacional com gol feio de bico desviando na zaga.
O torcedor vira uma mistura bizarra de matemático e vidente. Faz a simulação no site trezentas vezes por dia criando cenários impossíveis. “Se o Bahia perder e o Vasco empatar a gente só precisa ganhar do Cuiabá”. A esperança eh a última que morre mas é a primeira que tortura. A tal “probabilidade matemática” vira horóscopo diário. “98% de chance de cair”. A gente se agarra nos 2% como se fosse colete salva-vidas. O Fluminense de 2009 operou milagre com 99% de chance de queda e a memória desse ano é a única coisa que mantém o torcedor são.
O tal do “tapetão” também assombra claro. O campeonato acaba mas não acaba de verdade. Tem julgamento no STJD perda de mando de campo jogador escalado irregular. A tabela muda no tribunal engravatados decidindo o futuro de milhões. A agonia se estende ate dezembro as vezes janeiro. O torcedor não tem paz nem nas férias comendo peru de Natal e atualizando site de notícias jurídicas no celular escondido da família.
E quando escapa? A sensação não é de alegria. É alívio. Puro e simples alivio físico. Igual tirar um sapato dois números menor depois de doze horas em pé. Não se comemora permanência na Série A estourando champanhe. Comemora-se com a cerveja barata do bar da esquina abraçando estranhos e chorando com a promessa solene de “nunca mais vamos passar por isso”. Promessa que dura ate a quinta rodada do ano seguinte quando o time ta na zona de novo.Futebol maltrata a saúde do cidadão.
A gente jura que vai largar que vai virar fã de bocha. Mentira pura. Chega o fim de semana veste a camisa da sorte furada e desbotada e senta na frente da TV tremendo. Acompanha o minuto a minuto dos outros jogos. Seca o rival xinga o VAR. A calculadora vira extensão do corpo. Se sobrar algum trocado sobrando e a intuição tiver afiada pra adivinhar quem escapa desse calvário, vale conferir a revisão Leon Bet pra entender onde colocar a fezinha e quem sabe pagar o cardiologista. Mas cuidado com o coração ele não sabe fazer conta de porcentagem e sofre como se fosse o fim do mundo.











